Hum

Crescemos redomados em uma sociedade infundada e dominada pelos gêneros. Se for menina, quero uma bem menina, bonecas parideiras (que cozinhem, passem, comam e até façam cocô) e alguns “eletro-domésticos à pilha” para ela já começar a testar suas receitas de bolinhos de chuva e aquela pipoqueira que mija guaraná e ainda tempera a gosto em pleno fevereiro. Se for menino, quero logo a camisa do timão, quero um saco sujo, uma frota de carros, aviões (e vuuuuuuuuuun), rolimãs (alguém se lembra disso?) e ainda se possível alguma coisa que possa ser esmurrada (de animais de estimação duráveis a sua própria irmã). Agora imaginem vocês essas duas crianças dividindo o mesmo quarto, que beleza! É instintivo que o menino faria a boneca fazer cocô e daria pra irmã falando aquele bolinho de chuva gratinado estava uma delícia e ainda iria convencê-la de que papai só a tinha colocado ali para aprender a ser gente e aprender que chorar faz bem.

É aí que nasce a mulherzinha. O mundo está dominado por elas. Não falo do menino enfadonho que ficou isolado nos intervalos do colégio e sofreu repulsas por nunca ter ido ao mineirão com o seu pai, mas sim da mulher menina moça que não foi criada para responder aos apelos da sociedade, ou melhor, aos anseios dos meninos homens. O fato é que existem as coisas consideradas por natureza de mulherzinhas e as que nascem da relação com o bicho pai ou bicho irmão, alimentando assim sub-mulherzinhas (vá se acostumando porque a palavra mulherzinha não tem sinônimo e não pode ser substituída ao longo do texto), que ainda são submissas ao ponto de confundir educação com dependência (da financeira a sexual).

Mas por outro lado existem aquelas que mesmo fruto da realidade pela qual passamos, atingem maturidade suficiente para se livrar e correr atrás do que quer, sem perder o ideal mulherengo (ou melhor, mulherzinha). Pois eu já vi mulher mulherzinha trabalhando em canteiros de obra, e também já vi homem mulherzinha liderando um país inteiro e descriminando seus iguais (e olha que nem cheguei a citar o bigode do homem).

O fato é que ser mulherzinha não tem gênero, é um deslocamento de atitulde tomando parte ou não de alguma época de sua vida. Por isso, não subestime uma mulherzinha. Elas podem te fazer chorar, e você vai chorar. E elas mentirão sobre si mesmas. E você vai concordar, é claro. E ainda vão fazer de tudo pra ter ver feliz. Mulherzinhas são dóceis e amáveis.

Mamãe mandou você ir jogar bola muleque, vá atirar em alguma rolinha, vá. Não fique aqui me perturbando. Vá vadiar, vá vadiar… E menina do céu, pára de ser galinha, se for andar só com homens, que sejam sete anões. Mulherzinha que é mulherzinha aprende a se virar sozinha e que Darwin tinha razão. E nesse meio papo, contei dezessete mulherzinhas. Pois é, elas não vão sumir, não por agora. Que bom.


  1. Bom,muito bom.
    Só falou o tom feminista no texto.
    Mas isso é prá mim né?

  2. eu REALMENTE amo mulheres mulherzinhas. mas seu texto me encheu de dúvidas agora, hehe.

    (e a parte do “se for andar com homens, que sejam sete anões” foi genialmente hilário)

  3. crocrib

    eu odeio ser mulherzinha.
    mas toda mulher jah foi mulherzinha pela menos uma vez na vida.
    ou quase toda.
    e todo homem também.
    ou pelo menos, deveria ter sido.




Leave a Comment