Nós, engenheiros, idealizamos o mundo. Nós desprezamos as imperfeições, os detalhes, nós fazemos aproximações, formulamos teorias, analisamos os erros, os fazemos os menores possíveis, fazemos tudo se encaixar numa equação. É quando, finalmente, fica perfeito. Perfeito e exato.

Nós passamos 70% dos nossos dias estudando matemática. Talvez física, computação, química e tal. E durante 70% do nosso tempo, nós pensamos exatamente do mesmo jeito: EXATAMENTE. Depois de 3 semestres, integrais e derivadas ficam absolutamente normais (fáceis nunca). Depois de Algoritmos 2, 300 linhas de código de um programa é besteira. Depois de Física Moderna, uns números podem significar alguma coisa completamente sem lógica. Depois de SDL, nós entendemos como tudo pode ser muito mais complicado do que nós pensávamos. Basicamente, o tempo gasto olhando para uma teoria bizarra nos faz entender como o mundo real e um engenheiro se relacionam. E não é que nós não gostemos das imperfeições, daqueles detalhes e minuciosidades que fazem cada objeto, cada coisa, cada animal ou pessoa se diferenciar dos outros e ser único e especial. Nós odiamos! Os detalhes complicam a vida. Fazem tudo mais difícil.

Hiperbolicamente falando, claro.

Mas se eu disser que esses 70% do tempo pensando “exatamente” não mudam o nosso modo de pensar nos outros 30%, eu estaria mentindo. Mudam. Pior que mudam. Especialmente porque, durante grande parte desses 30%, ou você está estudando ou está culpado por não estar estudando. Existem poucos momentos de paz, sossego e harmonia. E durante estes, os mais nerds (tipo eu) tem sorte se conseguem evitar ficar falando pras pessoas como o curso é difícil ou como o professor de eletrônica analógica e digital é bom. O que, a propósito, é.

Nós estudamos muito. É sério. Nem venha me falar que o pessoal que faz jornalismo ou publicidade também. NÓS, engenheiros, estudamos muito. Nos dias difíceis – que são muitos – nós dormimos pouco e mal. Tem os trabalhos que se estendem por dias e você mal sabe sobre o que é. E ainda tem o estágio… Nós estudamos muito, nos preocupamos muito e nossas notas médias são relativamente baixas. Exceto que não são “relativamente”. O curso é difícil e exige bastante.

Mas meu ponto aqui é: nós pensamos, durante grande parte do nosso tempo, de forma exata. E é assim que nós nos tornamos pessoas realmente, realmente estranhas.

Algumas vezes, eu já parei um segundo pra pensar, durante uma conversa, e achei estranho meus amigos da área de humanas não saberem o que é uma integral. Mas eu voltei à realidade logo em seguida. Eu entendi que eles nem precisam. Eu, sim. E… isso, de forma alguma, me faz melhor que eles. Isso não me faz melhor que eles. Isso não me faz melhor que eles.

E nos chamem de alienados, mas nós nos preocupamos menos com política. Não que nós não nos preocupemos, mas, dificilmente, você vai ver um engenheiro MUITO empolgado com as eleições do DCE. Nós não lemos muitos livros (tipo literatura) e não discutimos arte. Ou sentimentos. Porque, em suma, nós não temos. Nós somos homens. Em suma.

Normalmente, engenheiros se tornam pessoas mais racionais que emocionais. E é inevitável que, dessa forma, os pequenos detalhes da vida passem despercebidos. Tudo bem que teoricamente a felicidade esteja nos detalhes. Mas nós também pensamos que a felicidade possa estar em fazer para que tudo seja tão perfeito e exponencial quanto possível. Ou nós olhamos pras coisas como se elas realmente fossem. Simplesmente porque ajuda.

As coisas são todas difíceis. A vida não é fácil. Todo mundo sabe. Nós sabemos. Mas se tudo depende de como você olha e não de como realmente é, nós, as pessoas “exatas”, estamos à mesma distância da verdade que os românticos das ciências sociais.

É só uma conclusão. Enfim.


  1. meu deus, estou chocado. mas fique feliz: seu texto é realmente MUITO bom pra um engenheiro. isso já é um elogio.

  2. Pois é, seu texto já é muito bom para um engenheiro e isso já é um grande passo. Mas não foi isso que vim fazer aqui.
    Concordo com grande parte do que disse, porém, digo que não é caso somente dos engenheiros, acredito eu que seja problema do pessoal de exatas. Sim, EXATAMENTE! E quer saber? Tive um namoro que terminou por causa disso. Tudo o que você narrou do dia de um estudante de engenharia, o dito cujo fazia. Mas ele cursa Ciência da Computação. Não deve ser normal, do mesmo jeito! Enfim.




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