Arquivo para dezembro, 2007

Então, não bastam as babaquices capitalistas do Papai Noel, nem os barcos de oferendas em Copacabana. Pra completar, nesse mês caótico e completamente diferente de todos os outros, ainda faz um calor desgraçado nesse país.

Não é brincadeira. Escrevo esse texto vestido apenas de cueca, depois de um banho e transpirando como um porco – expressão que nunca entendi, pois nunca vi um porco suando de verdade, mas, enfim.

Sem contar que a disposição da minha sala está errada – acabei de descobrir. Verão e horário de verão não combinam com ver um filminho de tarde mais. O reflexo na janela dura até umas oito da noite. Talvez eu devesse sair, comprar uma coca-cola no mercado ao invés de pelo telefone – pra variar, né? Mas nem pensar. Se o céu lá fora estivesse dessa maneira, sol bonito e poucas nuvens, e uns 10 graus Celsius a menos, aí sim eu toparia e aposto que seria um ser humano mais feliz também.

Sou pobre sem ar-condicionado. Posso ficar nu e o calor será impossível de ignorar. Frio não. Está frio? Coloca um casaco e acabou. Mas calor não. Calor é insuportável. E não posso reclamar. Parece que há uma conspiração em volta de mim que não aceita a minha falta de bronzeado e combina de me recriminar e reprimir a cada reclame dizendo que calor é uma delícia. Delícia? O que há de delicioso em: a) sorvetes escorrendo pela sua mão; b) não poder usar preto; c) a cerveja nunca estar tão gelada quanto você quer; d) você suar tomando banho; e) seu xixi evaporar no caminho da privada.

Eu preciso admitir. Al Gore, eu não dou a mínima pros pingüins. Al Gore, foda-se aquele urso polar quase morrendo. A gente realmente precisa fazer alguma coisa pra parar e reverter o efeito estufa pelo nosso próprio bem. Eu já estou achando isso aqui uma tortura, daqui um tempo o verão num país tropical com buraco na camada de ozônio vai ser sinônimo de inferno. Só vai faltar ter a dança do créu.

Eu, pessoalmente, parei de fazer planos de ano novo na virada teórica do milênio, de 1999 pra 2000. Se eu estivesse vivo um segundo depois do “DOIS… UM… ZEROOO!!!”, já seria, sinceramente, muita coisa. Hoje eu acho isso tudo meio ridículo. Também porque eu não sei de onde as pessoas pessoas tiraram a idéia de que o mundo fosse acabar… É bem provável que Deus não pense como os humanos e se importe com números redondos de três zeros. Aparentemente, ele gosta mais dessas coisas inexatas, desse tipo de número “70 vezes 7” e dessa matemática mais avançada (me permitindo uma dessas brincadeiras que os nerd-geek-loser-dumb da física A-DO-RAM! (Eu também…)).
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Mas desconsideremos todas as discussões relacionadas aos meus comentários acima: “Como Deus Pensa”… “SE Deus Pensa”… “SE Deus Existe”… “Que Deus?”… “ANH?!”. Também porque não é o tipo de discussão com a qual eu me divirta, especialmente em decorrência da minha tendência inconsciente a fazer comentários acidentais e ofensivos aos evangélicos.

É só que eu não acho que planos pro “feliz ano novo” funcionem muito bem. Existe uma maldição pra esse tipo de coisa – aliás, a mesma maldição que faz dietas de segunda-feira e promessas de início de semestre não funcionarem. Existe uma maldição pra esse tipo de coisa e acho que ela tem a ver com esse negócio de um Deus inexato. Como uma dessas pessoas que passam anos estudando as leis da física, seus desdobramentos, aplicações e funcionalidades, eu posso te afirmar que NADA DISSO FUNCIONA. Essas leis freqüentemente se perdem nos infinitos elementos aleatórios do universo e, no fim, elas acabam se tornando bem mais restritas do que deviam. Mas considerando que é vácuo e que não tem atrito, por exemplo, elas servem pra algumas coisas, é verdade. Tipo colocar satélites e comunicação a longa distância e energia elétrica e luz… Elas são BEM restritas.

Nem sempre dois experimentos feitos exatamente sob as mesmas condições dão os mesmos resultados. São os fatores aleatórios… que alguns chamem de “sorte” ou “destino”… whatever. O fato é que os fatores aleatórios regram nossas vidas.

É só que as situações mudam, a vida muda, novidades aparecem e hábitos são perdidos. Tudo isso depende muito de condições aleatórias, de coincidências e de destino e todas essas coisas juntas é que farão seus planos não saírem como o esperado. “Previsões” então?! Há! Nunca funcionou e nunca funcionará. Tirando as profecias Maias, óbvio. Mas planos dão errado e expectativas e esperanças se acabam, aí vem decepção e sofrimento e blá, blá, blá. Vale mais fazer na hora, portanto. Meu conselho de ano novo pode ser esse, inclusive. Não faça planos, faça agora. Soa bem e sábio. Tipo um “não deixe pra fazer amanhã o que você pode fazer hoje”. Claro que eu deixo, mas… Planos parecem muito fáceis.

E o futuro não será, não se engane. Como eu já ouvi dizer: Nada fica mais fácil, fica só mais familiar. Quer dizer que seu futuro será tão familiar quanto mais você tiver aprendido do passado. Então: “Aprenda com o passado” e “não deixe pra fazer amanhã o que você pode fazer hoje”.

Acho que é isso.

PS. 1: Eu soo como uma mistura de Antônio Roberto e Nostradamus te dando aula de física básica… Legal!

PS.2: Acabei de ver que as previsões 2007 pro meu signo realmente funcionaram! MEU DEUS! O que que eu faço?! Escrevo outro texto?…

Ok, ok, ok… meu dia é sexta-feira, eu sei! Mas, gente, sexta é um dia muito estranho. Muito mesmo. E foi esse blog aqui que me fez enxergar isso. (…)

Agora, indo ao que interessa, é porque meu post de hoje não pode ficar pra semana que vem… então estou aqui.

Tá certo que a pauta é meio batida, mas eu precisava lembrar de duas perdas irreparáveis que a nossa TV e o teatro tiveram esse ano..

Sabe aquelas novelas das sete, do Carlos Lombardi, com umas histórias sem pé nem cabeça? Pois é… a Nair Bello sempre estava lá. E, claro,  entre as personagens mais divertidas da trama. Quando ligo a televisão e ela aparece ali, dando aquelas gargalhadas tão únicas, dá uma sensação até um pouco melacólica, de que ela ainda está aqui, entre nós. Nair Bello é daquelas entidades que, pra nós, admiradores, são imortais.

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E, já que a palavra é imortalidade, impossível não falar de Paulo Autran. Se suas poucas participações na TV já ficaram marcadas, o que dizer da sua representação para a história do teatro brasileiro? As obras de Tennessee Williams, Shakespeare, Molière e Bertolt Brecht, talvez nunca tenham sido melhor interpretadas.

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(…)

Por una cabeza…

“Por una cabeza,
todas las locuras.
Su boca que besa,
borra la tristeza,
calma la amargura.
Por una cabeza,
si ella me olvida
qué importa perderme
mil veces la vida,
para qué vivir.”

GARDEL, Carlos in Por una Cabeza 

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Alguém, por favor!

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– Você é muito bonita.

– Oi?

– Você é muito bonitaa!

– Não entendi.

– Você é muito boniiitaaaa!

(com cara de desprezo e o coração acelerado) – Ah ta, obrigada. “Se eu soubesse que era isso tinha ficado calada”.

Alguns instantes depois o rapaz se levanta e vem em sua direção.

– Qual é o seu nome?

(ela desconfiada e trêmula) – Priscila.

– Prazer, Thiago. Você é linda. Me dá um beijo?

– Não.

– Só um Priscila! (se aproximando da garota)

– Não, eu nem te conheço. (andando para trás)

(engrossando o tom) – Conhece sim. Já te falei que meu nome é Thiago e você me disse que o seu é Priscila.

Ela sorri sem graça, trêmula, amedontrada, com vontade de chorar e tudo mais.

– Sai daí véi, isso vai chamar os homi. E eu não to afim de apanhar por sua causa. Sai daí.

– Saio não. Ô Priscila, se os homi pará aqui e perguntá que que nóis ta fazendo, o que você vai falar?

– Que você puxou papo comigo, mas que eu não te conheço.

(fazendo cara feia e vindo pra cima dela) – Me dá um beijo.

– Não menino, eu tenho idade para ser sua mãe, disse ela impaciente.

– Tem nada, eu tenho 18 anos. Quantos anos você tem?

– 29. (ela nunca havia mentido assim. Sem contar que seus 21 são visíveis)

– É casada?

– Noiva.

– Me convida pro seu casamento que eu vou matar seu marido.

– Você num faria isso. Você num tem 18 anos menino! (ela resolve voltar no assunto) “Cadê o ônibus, meu Deus”.

– Porque você ta afastando assim de mim? Segurando sua bolsa? Me empresta ela?

– Tô afastando porque eu não te conheço.

–Já te falei que conhece sim, Priscila.

–Sai daí véi, deixa a moça. Oh, ele é casado, viu moça? E a esposa dele é ciumenta. Se ela passá aqui e vê ceis dois junto, ce ta ferrada.

–Eu não. Nem conheço ele. (morrrrrrrrennnnndo de medo, louca para ir embora mas nada do raio do ônibus passar)

– Você dança funk?

– Não.

– Pagode?

– Não.

– Axé?

– Não. (mal sabia ele que ela é apaixonada por axé…)

– Me dá seu telefone!

– Não.

– Então me dá um beijo de língua!

[…]

Priscila não é uma moça qualquer. Thiago não é um rapazinho que tentava paquerá-la. Priscila estava indo para o trabalho. O rapazinho estava com um amigo no ponto de ônibus fazendo não sei o quê. Priscila nunca havia passado por situação parecida. Sabia que aquele menino (só o Thiago, porque seu amigo mostrou-se muito mais afável) não queria apenas um beijo. Ele queria assustá-la. Quem sabe roubá-la. A saída que Priscila encontrou foi entrar no primeiro ônibus que passou. Deu sinal. Ele tentou impedi-la de entrar. Mas ela entrou. Priscila estava com sua bolsa nova (tinha acabado de ganhar de Natal do seu noivo – que na verdade, é namorado), celular, cartão, dinheiro… Priscila sentiu muito medo de sofrer algum abuso no dia 26 de dezembro (um dia depois do Natal). Mesmo que não fosse um dia após o Natal, Priscila ficaria com medo. Mas o que a fez refletir ainda mais é que o tal fato poderia estragar seu ano de 2007 que termina tão bem; poderia arruinar um mês de dezembro que tem tudo para ser perfeito; facilmente destruiria o seu final de semana de festas ao lado de sua família. Priscila queria muito correr para os braços de seu pai e pedir socorro. Por mais que nada de sério tivesse lhe acontecido. Mas seu pai está longe. Na hora “H” Priscila só conseguiu se portar da maneira como vocês viram. Travou um diálogo com o rapaz, no intuito de mostrar-lhe que ela não era diferente dele. Que poderia conversar (não beijar como ele queria). Priscila sentia muito medo, mas tentou manter a calma. Priscila entrou no ônibus, assentou, ligou pro namorado e desabou a chorar…

Priscila na verdade, se chama Mara.

[…]

A indagação do dia? Porque a vida é assim? Uns com tanto outros com tão pouco? Não culpo Thiago. Nem sei ao certo se a intenção dele era mesmo me fazer algum mal. Mas ele me fez medo, muito medo. Porque as pessoas são más? A resposta seria falta de oportunidade? O quê? Alguém responde? Alguém? Alguééééém!

Incrível como um feriadinho no último mês do ano causa tantos problemas. Primeiro que pra eu ir pra padaria tem trânsito. E, chegando lá, tem uma fila de dois quilômetros para comprar pão (pois eu juro que entendo o sumiço dos panetones, a briga pelos perus e a massa na feira da Afonso Pena, mas por que a febre de Natal atinge locais insuspeitos como a padaria, o parque, a manicure e o estúdio de tatuagens?). E mesmo a melhor parte do Natal – que ainda é a comilança – é estragada a mania idiota de misturar frutas com arroz.

Fiquei muito indeciso em listar quais as coisas mais chatas do Natal. Acho que um bom motivo pra achar tudo um saco é que a maioria das pessoas que resolvem decorar suas casas com luzinhas sofrem de uma carência crônica de senso estético, de forma que você vê multiplicar, na vizinhança, fachadas que mais se assemelham a casas de tolerância. Mas, acredite ou não, essa não é a pior coisa da data.

Alguém precisa avisar pra população cristã – na qual eu não me incluo, grazadeus – que dezembro não tem finais de semana suficientes para fazer o amigo secreto da faculdade, do condomínio, a festa de confraternização da empresa e a visita aos 324 tios e tias da família. Aliás, geralmente a gente consegue encontrar apenas com um bom grande e velho amigo ou apenas um dos 324 tios, dá um beijo e um abraço apertado, deseja “feliz Natal” e torce secretamente pra aquilo chegar, de alguma forma misteriosa, aos 323 tios restantes – que você só vai ver no ano que vem.

Na verdade, mesmo que dezembro tivesse 48 finais de semana, meu (pseudo) salário (de estagiário sem 13o) não me permite um presentinho pra cada pessoa da faculdade, condomínio e escritório e continuaria frustrado por não poder dar um presente para aquele tio que nunca vejo, para cada um dos amigos mais queridos, companheiros de blog e para o moleque que vende bala no onibus – e que poderia estar roubando ou matando, mas está ali, apenas pedindo sua ajuda e te desejando uma boa viagem.

Uma das coisas que mais me deixa encabulado com o Natal é a de que o planeta inteiro modifica sua maneira de pensar, preços e decorações pela data cristã que não é a mais importante do cristianismo. Minha gente, que adiantaria Jesus nascer se ele não tivesse morrido na cruz e blá blá blá? A data mais importante é a Páscoa, porra.

Natal é punk, pois me bate aquela ansiedade terrível de falar com todo mundo, amarrar as pontas soltas, perdoar o colega de trabalho cretino que espalhou o boato de que você dançava no mastro da Up, procurar aquela garota que era sua melhor amiga na segunda série e que você nunca mais viu. Também me bate um desespero de organizar armários, gavetas, caixas, guarda-roupas, caixas de e-mail e de CDs – especialmente depois que fui procurar o meu Best Of do Frank Sinatra para ouvir “Have Yourself a Merry Little Christmas” e encontrei um pirata escrito “Avril Lavigne”, com a letra da minha irmã, dentro da caixinha.

PS: Texto original aqui e ho, ho, ho, felisnatau.

Veinte y Cinco

“— Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania… Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo…

— Meu filho, não fale assim…

— Pois falo, pronto!” ANDRADE, Mário in O Peru de Natal

Vigesimaquintamente, gostaria de lembrá-los que o Natal se aproxima. Não postarei novamente até que cada um de nós, em sua respectiva esfera familiar, esteja reunido em volta do tão querido peru.

Sim, sim. É aniversário do mano velho que nasceu assim, há uns 2007 anos. Todo mundo comemora, fica feliz (todo mundo por aqui, pelo menos. Tenho uma amiga judia que aaah, deixa…). Milhões de watz serão desperdiçadamente destinados à iluminação tanto da Pça da Liberdade quanto do barraco da Pedreira Prado Lopes que sempre vejo quando pego o ônibus pra casa.

São milhões de castanhas, nozes, damascos, uvas passas. Milhões de panetones, rabadas, pudins, espumantes. São milhares de caixinhas de natal, de campanhas arrecadando comida, roupa, presente, livros, abraços. São pessoas comicamente se vestindo de Papai Noel e fazendo a alegria da criançada.

A alegria da criançada do lado de cá.

Do lado de lá, hospitalizados, loucos, órfãos, moradores de rua, trabalhadores rurais. Desculpa se às vezes pareço meio blasé, demodé ou qualquer palavra estrangeira over fashion… É que me indigna essa mania de esmolar pros necesitados (?) nessa época e ao mesmo tempo se fartar de tanta comida e presentes em nome da boa e velha festa de Natal.

 

Já que é pra festejar seu cumpleaños, não era isso que ELE dizia.

 

E viva a 25 de Março!

E viva o 25 Centavo!

E viva mais um 25 de Dezembro!

Ps: ainda assim acho o post do Beum (in Cinco contra Um – Cinco bons motivos pra se acreditar em Papai Noel – ou algo assim) um must (lembra? da novela? não? então deixa…)