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Dia

Esta história começa aqui.

Eu tinha que voltar para casa o quanto antes. A viagem era longa mas eu pouco me aludia à incessante luta para se alcançar a velocidade da luz, para mim bastava um monomotor para que eu atravessasse o oceano de poucas medidas d’água num piscar de olhos. Coloco a foto de Magnólia em cima do arcaico painel de controle e me esqueço de todas necessidades corporais, paro de me sentir como um entrave humano, e me visto de coragem. Parto para a Itália de volta para casa.

Magnólia sempre quis ter um bebê. Mas por infortúnio da natureza, não pudemos concretizar o seu sonho, que acabou virando nosso, pois eu a queria feliz, sabia que isso iria fazê-la sentir mais perto de mim. Eu sei que um dia a ciência terá evoluído o suficiente para que ela pare de sonhar e viva um pouco disso, de ser mãe, e se for preciso uma fortuna, eu saberei com lidar, essa é a dinâmica do bem. No Brasil, Magnólia já visitou grandes e pequenas cidades de São Paulo, nasceu em família abastada, mas logo quis fugir em busca de sua realidade, sua liberdade. Magnólia estava livre para sonhar…

Pisei em terras romanas e fui rápido em direção ao sul pela Via Nazionale, guiando um taxista que mal sabia chegar à Basílica de Santa Maria Maggiore. Pedi para que ele parasse algumas quadras antes, avistei um movimento estranho em torno de minha casa, pessoas por todos os lados, alguma coisa estava errada…

Magnólia conheceu uma família, no interior de São Paulo em um cidade chamada Itapetininga, da qual se apegou facilmente com as crianças, apesar da forte repulsa pela mãe, um mulher aos 40 anos de idade e com rancor de ver aquelas crianças se divertindo enquanto levava no ventre um quinto. Magnólia tinha coração de mãe, afagava-os sempre que necessário, na maioria das vezes deixava de comer para que sobrasse mais para os pequenos. A mãe andava atordoada nos últimos dias antes do nascimento deste último. Ninguém entendia o seu nervosismo, a sua demanda de atenção não superava os seus dois peitos inchados por demais e estavam a isolando em um mundo de ferro e fogo.

Me desvio de todo aquele alvoroço na porta, já tinha dito a eles meses atrás que não iria permitir a entrada de ninguém. Não sei porque insistiam, acabei entrando pela porta dos fundos. Assim que entrei pude me confortar com o nobre brilho que emanava das paredes, vinha de todos os lados, senti falta dessa luz, senti falta de Magnólia. Acabei dormindo por alguns dias, algumas horas e segundos incontáveis.

Em meu sonho, viajo no tempo e no espaço. Estou em um futuro feliz, estampado nas fotografias sensoriais, Magnólia corre em minha direção, ela está feliz, estamos em um campo verde e aberto, algumas espécies de pássaros, ouve-se o silêncio. De repente caio em uma sala escura, sinto fome, sinto frio, Magnólia observa pela fresta da porta mas não me enxerga ali, no mesmo quarto que eu, uma mulher está abortando, sangue e lágrimas escorrem pelo seu corpo, a fraqueza nas mãos faz com que ela deixe uma pequena faca cair no chão.
Acordo bruscamente tentando me apoiar em alguma coisa, neste exato momento estou atrás de uma porta, em minha própria casa, sendo levado por policiais enfurecidos, todos me encaram, algumas caras conhecidas perdidas por aí, me colocam em um carro branco, amarrado em uma maca. Naquele momento, eu tentava acordar, mas eu perdi o brilho que vinha lá de dentro, a angústia me apertava o peito, um líquido amargo na garganta me tampava a respiração. Quando consegui abrir os olhos novamente, eu estava em uma sala de espera, estava de banho tomado. Um tela gigante, daquelas mesmas de São Paulo, era a minha única companhia. Eu não pude me mover, não pude fugir, não pude gritar, não pude voar dali, não pude sequer chorar quando eu vi na TV, um noticiário direto do Brasil, era Magnólia, estava com um bebê na boca, vagando pelos trilhos, naquela hora o meu coração parou. E o de Magnólia também.