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magnoliaAbracei Magnólia. O calor regado pela fumaça dos veículos transmitiam o retorno para a casa.
Todos aguardavam ansiosos o último episódio da novela das 8, quem morreu, Paula ou Thaís? Quem matou?
Segurei forte a sua mão, sussurei alguma coisa carinhosa em seu ouvido e fomos caminhar um pouco. Passei pela Praça da Sé afim de pegar a última sessão do dia em alguma loja de eletrodomésticos ainda aberta. Estávamos perto do Natal, ou seria outra data comercial, ainda não sei, prefiro ser meu próprio relógio, quem governa é o coração.
As pessoas agem como se estivessem em um jogo de xadrez, movimentam-se com facilidade, e no final da noite sentam e dormem, satisfeitos pelo fato de terem preservado a rainha. A mulher é o futuro do homem. Minha doce, Magnólia.
Paro em frente à TV 29″ ainda ligada das Casas Bahia, o preço continua imbatível, mesmo não sabendo ler eu sei disso , de números eu entendo. Passei boa parte de minha vida por conta deles. O bonner e a fátima continuam formando um belo casal (diga-se dupla), suspiro com os lábios entreabertos, mas ainda distorcem suas fisionomias ao falar do terror que estamos acostumados a ver nos filmes. Morei em Hong Kong há três anos, aprendi a cantar em mandarim, a comer de pauzin e a pular com duas cordas, coisas que não são fáceis para um velho de 79 anos. Nasci no sertão nordestino, aprendi a andar com minha cachorra Baleia, saí de Itapioca para o mundo. São oito da noite e já fazem alguns dias que não coloco nada na boca, a não ser o mel que sai da boca de Magnólia. Ela respira por mim, faz do meu corpo um lance de chamas, um botão prestes a ser confortado por uma blusa de lã. Eu e ela sabemos que amar é demodê sim, mas quem se importa com tamanho descrédito para o que sentimos?
Andei pelas ruas, passo por um vira-lata, parecia estar perdido, faço um esforço para que ele ouça meus pensamentos, que saiba que alguém nesse mundo olha por e para ele. Magnólia o conhecia muito bem, já que o chamou pelo nome, mas ele mal pôde nos ver, pois tinha sobre os olhos uma camada branca, cicatrizada pelo tempo. Observamos seu caminhar macio sobre a calçada, passos cansados, sábios por percorrer tantas vezes o mesmo caminho. Ele pára em frente a uma estante de frangos assados de uma grande padaria, suor escorrendo, ainda dá pra ouvir a pele estourando e o barulho das engrenagens. Por ali ele permanece por várias horas, somos todos tele-espectadores do mesmo canal.
Resolvo voltar para casa, Magnólia foi fazer companhia para o amigo dos passos cansados. Voltei um pouco desolado, mas eu teria que voltar para casa, não aguentaria acompanhá-la por muito mais tempo….

 

Continua na próxima semana.
Esta parte da história foi baseada na letra da música Baader-meinhof Blues da Legião Urbana, por aqui.

Olá, eu sou o Braulio, escrevo aqui todas as terças.
O nome da minha coluna é EMUNDO, e vou tentar colocar aqui músicas, filmes, notícias que eu pego por aí traduzidos por alguns trocadilhos modernos. Viva la comunication.