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Ele é como é

Já reparou como o ser humano é? Fala que faz sem fazer bosta nenhuma. Diz que emagreceu sem nem ter se esforçado para tal. Enche a boca para dizer que a namorada fez isso, isso e isso sem querer saber se o próximo está mal por nem namorada ter. Grita aos quatro cantos que é malandro, marrento e inovador, mas quando analisado bem a fundo não passa de um jovenzinho careta alá anos 30. Enfim.

Certo dia estava eu a pensar o que leva um indivíduo a cometer tais ataques à personalidade sua de cada dia, sendo que retorno positivo mesmo não vai haver. Retorno por si só é possível, claro. Tem bobo pra tudo, né? Então porque não haveria alguém apto a acreditar em tais lorotas? Acreditam e exaltam… quanta ingenuidade!

Temos como exemplo a Marieta Felícia que outro dia estava lá dentro do ônibus falando em alto e bom som o quanto seu marido a faz feliz. Que ela casou-se virgem, que guardou todo o amor que tinha – literalmente – para dar, para o amado futuro e atual esposo e que ensinara o mesmo às filhas. E falava isso tudo a uma pobre adolescente que não tinha nada a ver com suas lorotas amorosas, queria mais era ler sobre as técnicas de aplicação de injeção que vinha estudando no curso de farmácia. O pior é de tudo é que era tudo mentira. Marieta não era a mais feliz das donas-de-casa. Marieta tinha um marido carrasco que mal sabia o que era amar. E o que ele fizera com ela (quando a pobre se entregou) mal passara de um simples ato sexual.

Outra história para inglês ver partiu de Francisco Ermiliano. Francisco é um menino pobre, do interior, que adora tirar onda de intelectual. Francisco é inteligente, tudo bem. Entende tudo sobre literatura e se dá muito bem com quem fala a mesma língua que ele. Mas há um problema, Francisco gosta de se fazer de sabichão. Acha que manja de tudo, que é malandro e ainda por cima popular. Quanta pretensão! Francisco não é nada disso. A verdade? Vou falar. Francisco é frustrado. Ninguém lhe dá muita atenção, a começar por seus pais que ficaram lá no interior… os amigos só querem saber dele para os momentos que convêm – e quando chega o final de semana, só lhe resta o computador. Francisco é meio nerd. Deve ser por isso que ele escolheu fazer Ciência da Computação. Francisco não tem namorada, não tem animal de estimação. Francisco é mal amado, diria até invejoso. É, ele se incomoda com a felicidade alheia. Mas adora contar vantagem por aí de que o que vale mesmo é estudar (não estudar de estudar, mas de ter conhecimento sobre coisas diferentes. Sobre literatura). Francisco não é normal. Não pode ser!

Não nos cabe julgar quem é feliz, quem está certo ou errado. Não nos cabe alertá-los de que a vida não é este conto de fadas que eles tentam mostrar a quem lhes rodeia. Não nos cabe acabar com a fantasia de pessoas como Marieta e Francisco. Não. Sabe por quê? Porque mesmo estando imersos num mundo inexistente, vai ver é isso que segura a onda e os mantêm firmes. Não justifica, eu sei. A gente precisa ter o pé no chão e a consciência de que nossas vontades nem sempre estão passíveis de ocorrer. Mas ainda assim a indagação que fica é: por que o ser humano tem mania de criar um mundo que não existe, e achar que todos devem acreditar que mundo melhor que o seu não há?

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Hoje quando cheguei no trabalho me chamaram para ver a foto da menina siamesa nascida com quatro braços e quatro pernas encontrada na Índia e que estava prestes a entrar na sala de cirurgia para poder viver uma vida normal. Sua semelhança com a divindade do hinduísmo Lakshimi fez com que alguns moradores da comunidade acreditassem ser ela a reencarnação da própria deusa e quiseram impedir o feito.
Sabemos que desde os tempos da Grécia antiga os povos politeístas abraçavam uma variedade incrível de Deuses que detinham super-poderes e fisionomias perfeitas e ilimitadas. Nós, os mortais, por maior que fôssemos estaríamos limitados à forma padronizada Adão e Eva, nos diversificando por detalhes tão pequenos que no final das contas não nos diferenciaria tanto assim, apesar da repulsa pela miscigenação em algumas sociedades.

Tá, nascemos do limite. É na barriga de nossa progenitora que descobrimos o quão limitados somos vivendo nove meses em uma bolsa (ou melhor, uma bolseta) recebendo do bom e do melhor suco de mãe (não que isso seja ruim) e não tomando decisão alguma para nossa própria formação. E quando ganhamos enfim a liberdade, olhamos para nossos semelhantes e nos perguntamos: por que só cinco dedos (mesmo porque ouvi dizer que o dedinho do pé não tem função nenhuma), por que não asas no lugar dos braços? E por que não mergulhar em uma piscina e por ali ficar por horas e horas submerso na solidão? Aí que está. Fomos criados com limitações para nos virarmos, para criarmos coisinhas que suprissem essas limitações. E o que é a ciência se não o homem tentando se virar sozinho, definindo e expandindo o conhecimento.

Não estou aqui para julgar a nossa mortalidade, mas apenas para questionar a viabilidade de algumas funções corporais que não nos foram dadas. Digo que não devíamos questionar o ciclo da vida. A morte é certa sim, mas se durante o processo embrionário nos fosse dado a chance de escolher a forma que melhor nos satisfaria para podermos desfrutar alguns prazeres sobre-humanos, não teríamos que tirar notas do bolso ou gastar milhões em tecnologia para cobrir o que não somos capazes de ser.

Na verdade queremos isso, quando olhamos o diferente com um torto olhar, queremos sê-lo. Queremos possuí-lo. Pois ele não participa dessa forma de gelo da qual fomos fabricados. Queremos sim ter quatro braços, asas, brânquias, força ilimitada, visão e audição aguçadas. Porque só aí saberíamos valorizar o diferente, que já não seria tão quanto agora, já que ser diferente, não seria ter o cabelo engraçado ou os olhos puxados, ser diferente seria tão normal quanto ir ao supermercado e comprar uma nova marca de presunto. É como um não ter final, um ser ou não ser. Afinal, o que é isso?