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Depois de boas semanas de pegação e conversas bobas, as coisas começam a fica mais sérias. As conversas mais profundas, as saídas mais freqüentes e chega a hora de conhecer onde a outra pessoa mora.

E você entra sem pedir licença mas acanhado. Tenta olhar tudo sem parecer estar olhando e vocês seguem pro quarto. Rola um papo casual enquanto guardam as compras, bolsas, casacos ou mochilas e você olha. Ali está! A prateleira de livros.

Você não necessariamente torce pra encontrar nenhum em especial. Você passa os olhos tentando identifica-los pela lateral de escritos verticais. Vendo se há alguma ordem ali, se estão organizados por título, autor, sobrenome do autor ou aleatoriamente. E então acontece; você vê seu livro favorito na prateleira. Meio minuto depois vocês já estão fazendo sexo.

Livros favoritos são complicados. Pense nos seus. Faça uma boa lista e depois vá até sua prateleira. Quantos deles você tem em casa? Quantos livros mudaram sua vida e pertencem a bibliotecas ou amigos? Esse é o motivo da excitação. O outro achou esse livro tão bom que ele o tem em casa. Ele! O livro! Em casa!

Não é nada superficial. Encontrar Zibia Gaspareto na estante de alguém não é broxante. Mas achar um Mark Twain ou Gustave Flaubert é pra lá de excitante – se a pessoa já tem outros pré-requisitos, claro. Isso se chama “tesão cultural” e “penetração intelectual”.

Nunca fui muito fã de Turma da Mônica ou tirinhas japonesas de nenhum tipo. Posso afirmar com total certeza que minhas tiras favoritas são as que contam as aventuras de uma menina chamada Mafalda, as de um tal Calvin e seu tigre de estimação Haroldo e as de um melancólico garotinho chamado Charlie Brown. Francamente, quem nunca leu uma dessas? Quem nunca se viu em um destes personagens?

Para os desinformados, essa semana será lançado o livro “Schulz and Peanuts”, do jornalista David Michaelis. Essa é a primeira biografia do desenhista Charles Schulz, criador da turma do Snoopy, a ser lançada após a sua morte. Dizem que a história retrata o cartunista como um homem extremamente melancólico, o que fez com que a família, que desde o começo colaborou com informações e material para a obra, não gostasse do resultado.

Melancólico ou não – aliás, porque seria esse adjetivo pejorativo? – o fato é que o cara era genial. E quem descreve muito bem a inteligência de Schulz é o prórpio Bill Watterson (de Calvin & Hobbes), descrevendo tudo que via na obra dos Peanuts e sonhava em fazer também: “Os desenhos limpos e minimalistas, o humor sarcástico, a honestidade emocional inflexí­vel, os pensamentos de um animal de estimação, as crianças levadas a sério, as loucas fantasias!”.

Ser criança é muito complicado e poucos entendem ou lembram disso. De certa forma, acho que todos nós somos um pouco Schulz ou um pouco Charlie Brown (se é que eram pessoas diferentes). As três tirinhas que citei no primeiro parágrafo são um sucesso pois misturavam de forma singular inteligência e bom-humor – dois artigos que estão ficando muito raros.
E sobre a polêmica do livro, Watterson diz que “o senhor Michaelis realizou uma extraordinária investigação e escreveu um relato perceptivo e comovente da vida de Schulz”.

Quem ficou com vontade de ler levanta a mão!