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Alguém, por favor!

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– Você é muito bonita.

– Oi?

– Você é muito bonitaa!

– Não entendi.

– Você é muito boniiitaaaa!

(com cara de desprezo e o coração acelerado) – Ah ta, obrigada. “Se eu soubesse que era isso tinha ficado calada”.

Alguns instantes depois o rapaz se levanta e vem em sua direção.

– Qual é o seu nome?

(ela desconfiada e trêmula) – Priscila.

– Prazer, Thiago. Você é linda. Me dá um beijo?

– Não.

– Só um Priscila! (se aproximando da garota)

– Não, eu nem te conheço. (andando para trás)

(engrossando o tom) – Conhece sim. Já te falei que meu nome é Thiago e você me disse que o seu é Priscila.

Ela sorri sem graça, trêmula, amedontrada, com vontade de chorar e tudo mais.

– Sai daí véi, isso vai chamar os homi. E eu não to afim de apanhar por sua causa. Sai daí.

– Saio não. Ô Priscila, se os homi pará aqui e perguntá que que nóis ta fazendo, o que você vai falar?

– Que você puxou papo comigo, mas que eu não te conheço.

(fazendo cara feia e vindo pra cima dela) – Me dá um beijo.

– Não menino, eu tenho idade para ser sua mãe, disse ela impaciente.

– Tem nada, eu tenho 18 anos. Quantos anos você tem?

– 29. (ela nunca havia mentido assim. Sem contar que seus 21 são visíveis)

– É casada?

– Noiva.

– Me convida pro seu casamento que eu vou matar seu marido.

– Você num faria isso. Você num tem 18 anos menino! (ela resolve voltar no assunto) “Cadê o ônibus, meu Deus”.

– Porque você ta afastando assim de mim? Segurando sua bolsa? Me empresta ela?

– Tô afastando porque eu não te conheço.

–Já te falei que conhece sim, Priscila.

–Sai daí véi, deixa a moça. Oh, ele é casado, viu moça? E a esposa dele é ciumenta. Se ela passá aqui e vê ceis dois junto, ce ta ferrada.

–Eu não. Nem conheço ele. (morrrrrrrrennnnndo de medo, louca para ir embora mas nada do raio do ônibus passar)

– Você dança funk?

– Não.

– Pagode?

– Não.

– Axé?

– Não. (mal sabia ele que ela é apaixonada por axé…)

– Me dá seu telefone!

– Não.

– Então me dá um beijo de língua!

[…]

Priscila não é uma moça qualquer. Thiago não é um rapazinho que tentava paquerá-la. Priscila estava indo para o trabalho. O rapazinho estava com um amigo no ponto de ônibus fazendo não sei o quê. Priscila nunca havia passado por situação parecida. Sabia que aquele menino (só o Thiago, porque seu amigo mostrou-se muito mais afável) não queria apenas um beijo. Ele queria assustá-la. Quem sabe roubá-la. A saída que Priscila encontrou foi entrar no primeiro ônibus que passou. Deu sinal. Ele tentou impedi-la de entrar. Mas ela entrou. Priscila estava com sua bolsa nova (tinha acabado de ganhar de Natal do seu noivo – que na verdade, é namorado), celular, cartão, dinheiro… Priscila sentiu muito medo de sofrer algum abuso no dia 26 de dezembro (um dia depois do Natal). Mesmo que não fosse um dia após o Natal, Priscila ficaria com medo. Mas o que a fez refletir ainda mais é que o tal fato poderia estragar seu ano de 2007 que termina tão bem; poderia arruinar um mês de dezembro que tem tudo para ser perfeito; facilmente destruiria o seu final de semana de festas ao lado de sua família. Priscila queria muito correr para os braços de seu pai e pedir socorro. Por mais que nada de sério tivesse lhe acontecido. Mas seu pai está longe. Na hora “H” Priscila só conseguiu se portar da maneira como vocês viram. Travou um diálogo com o rapaz, no intuito de mostrar-lhe que ela não era diferente dele. Que poderia conversar (não beijar como ele queria). Priscila sentia muito medo, mas tentou manter a calma. Priscila entrou no ônibus, assentou, ligou pro namorado e desabou a chorar…

Priscila na verdade, se chama Mara.

[…]

A indagação do dia? Porque a vida é assim? Uns com tanto outros com tão pouco? Não culpo Thiago. Nem sei ao certo se a intenção dele era mesmo me fazer algum mal. Mas ele me fez medo, muito medo. Porque as pessoas são más? A resposta seria falta de oportunidade? O quê? Alguém responde? Alguém? Alguééééém!

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“Se você tivesse chegado na hora marcada, tudo teria sido diferente”. Era essa frase, a maldita frase que estava no bilhete junto ao bouquet que entregaram pela manhã. A única coisa que consegui pensar foi: que drama é esse? Mas na fração de segundo seguinte, a realidade veio à tona. Foi como se me dessem um empurrão alertando: acorda pra vida! 

Eu havia me esquecido. Não dei importância à sua felicidade. Só consegui me sentir a pior pessoa do mundo. Mas fiquei intrigada. Por que, afinal, tanta decepção pela minha ausência, se você apenas tinha me convidado para uma comemoração entre amigos, naquele bar que costumávamos ir com o pessoal da redação? Já se passaram dois anos e, nesse período, não tive nenhuma notícia sua, nem um e-mail encaminhado, sequer. Aliás, minto. Só aquele DVD do Cauby, que você me mandou de presente de aniversário.  

Tomei o café da manhã pensado nisso. Tentando achar uma resposta.  Ocorreu-me te ligar, mas, para aumentar minha curiosidade, seu celular só caía na caixa postal. O jeito foi conter minha inquietação e tentar novamente mais tarde. No caminho para o jornal, lembrei-me da Stela. Sua melhor amiga com certeza saberia o porquê daquilo tudo. Parei o carro e disquei. Estranhamente, ela disse que era melhor que conversássemos pessoalmente e perguntou se poderíamos almoçar juntas. Marcamos no shopping mesmo, já que ela também trabalha ali perto.  

Stela chegou e me olhou profundamente por uns dois minutos. Sem entender nada, pedi que ela acabasse logo com minha ansiedade. Comecei a ouvir a história mais surpreendente da minha vida. Por que você fez isso? Por que teve medo? Se tivesse me dito antes, que sempre foi apaixonado por mim, aí sim, tudo teria sido diferente. Você tentou prever minhas escolhas e matou nossa chance. Eu também sempre gostei você.

Esqueci de ir à sua festa ontem. Acho que, na verdade, eu quis esquecer. Quis evitar o reencontro. Por quê? Por medo também.  Eu não quis acreditar quando Stela me contou que você tinha preparado tudo para, ontem à noite, se declarar. A coisa certa no momento errado, talvez. Eu queria poder voltar no tempo e sair correndo, impedindo que você embarcasse naquele avião. Você acredita mesmo que, indo morar do outro lado do mundo, vai me esquecer?

Provavelmente, esse e-mail é a única forma de chegar até você agora. Eu só quero pedir que você volte. Esqueça tudo e volte. Ou me diga onde você está e eu vou ao seu encontro. Não deixe que a nossa covardia nos vença.  

Te amo… pra sempre!