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Nem sempre fui assim tão cínica. É natural que as coisas mudem. Mas me lembro perfeitamente da época em que a punição era tudo o que eu evitava. Como me humilhava a punição. Me sentia suja, sem regresso. O resultado era uma conduta impecável. Como 2+2=4: Sem fazer coisas erradas, sem punições. Preto no branco.

Depois de um tempo, comecei a enxergar o arco-íris. E o prazer das coisas erradas. Por elas serem coisas ou por serem erradas? Não sei. Para evitar as punições, entrei na arte de me esquivar. Porém, matar uma realidade ocupa espaço interno. Por um simples problema estrutural, a negação deu origem à criação. Uma outra realidade era possível.

Tornar possível o impossível, somar letras e números e desenhos e ações e sentimentos, tudo numa mesma equação, que não permitia denominadores em comum, era esse o plano. E quando a nova realidade se camuflava, clandestinamente, com a outra realidade, aquela partilhada, sinônimo de verdade, aquilo sim era um prazer. Portanto, ainda hoje não sei se era por causa das coisas, por causa do erro, ou por causa da mentira.

Mentira mesmo. Sou uma pessoa cínica. Para os eufemismóides, dou uma canja: livre interpretação e criação da realidade. Mas é mentira. Uma doce e sedutora mentira, que invade sua língua e desce macia pelas entranhas.

Mentiras são como pessoas. Há as bonitinhas, mas ordinárias. As piores, pois se apóiam em sua própria ignorância preguiçosa. Há as maléficas, mas inteligentes. São cancerígenas, cujos efeitos demoram muito para serem absorvidos. E por último, há aquelas dispostas à entrega, nem sempre consciente, no mínimo dotadas da consciência da inconsciência. Muitos a chamam também de arte!

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Nesta semana, duas pessoas especiais fazem aniversário. Não estou aqui roubar nem para falar delas, mas não custa nada deixar meus votos de felicidade registrados. Afinal, são pessoas que eu sonhava em conhecer e que, em menos de um ano, tornaram-se essenciais em minha vida. São amigos de verdade, componentes da minha banda favorita.

Mas a indagação de hoje não se refere ao aniversário de amigos meus e sim a … POR QUE FESTEJAMOS NOSSOS ANIVERSÁRIOS? Você já deve ter lido por aí algum texto que fale sobre isso.  Eu mesma tentei lembrar um que li em determinada ocasião, procurei no Google como uma louca e não obtive sucesso. Por isso, deixo aberto aos anjos de guarda dos blogueiros esquecidos que se habilitarem em me ajudar. Quem lembrar primeiro, por favor, diga nos comentários!

Então está lançada a sorte, digo, a pergunta. Porque festejamos a data de nosso nascimento soprando velinhas, recebendo convidados, cortando o bolo e ganhando presentes? Hábito que perdura por anos, inicialmente, os parabéns não eram concedidos a todos, sabia? E olha que hoje, até cão ganha festinha no melhor estilo que você puder imaginar.

Cão tem festa, gente tem festa, empresa tem festa, cidade tem festa, tudo é motivo para comemorar quando o assunto é aniversário. A não ser que seja o aniversário de uma coisa ruim. Mas no caso, estamos falando do aniversário de nascimentos das pessoas e isso é uma coisa boa. Como você, que provavelmente teve festa de um aninho, de cinco e se for menina até de 15 – o que não é o meu caso (não, senhores engraçadinhos. Eu sou menina sim, é que não tive festa quando debutei, preferi ganhar dinheiro). Mas eu volto na questão abordada pelo autor (que eu não me lembro quem seja) do texto sobre comemorar ou não aniversários.

Veja bem: nascemos, crescemos e morremos. Certo? Essa é a lei natural da vida. Como todo começo tem um fim, como tudo o que sobe desce, como tudo que começa acaba, a nossa vida também um dia pára. E os aniversários são para quê então? Para nos guiar até a cova. Cruzes! Como isso soa fúnebre! Mas é a pura verdade. A cada aniversário, mais um ano de vida que se foi, menos um ano de vida para se viver. É melhor correr, o tempo está acabando.

[…] SAI DESSE CORPO QUE NÃO TE PERTENCE!

Ok, ok. A verdade é que eu não penso assim. Adoro comemorar aniversários, ir a festas de amigos, chamar todos para minhas comemorações. Sei que no final de tudo vem a morte, mas como boa espírita que sou, também sei que a morte não é fim de tudo, e sim, o começo! Então, ao invés de ficar pregando como o autor (repito: que eu não me lembro quem seja) do texto sobre comemorar ou não aniversários, é melhor que eu explicite a minha real concepção.

Acredito mesmo é que nossos aniversários devam ser comemorados com todo o fervor possível. Agradecendo pelas oportunidades, refletindo sobre as ações praticadas, pedindo pelos próximos e próximos anos que virão e… bebemorando com os (verdadeiros) amigos. Afinal, “a vida é para ser vivida”. Clichê? Que nada! Seja autêntico, faça à sua forma, seja feliz! E, caso seja seu aniversário, permita-se extravasar ainda mais!

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Raskólhnikov andava pelas ruas de São Petersburgo, carregando o mundo nas costas. Não por sacrifício, nem por caridade. Ele precisava sobreviver àquelas lembranças. E eu ia com ele.

(dentro do meu carro, a estabilidade…)

O ar pesado só não era mais pesado do que a sua consciência. E a febre da culpa tomava todos os seus movimentos. Tinha medo de não se apegar. Medo de não se arrepender. E eu ia com ele.

(logo me esqueço, tudo tem seu preço.)

O mundo deveria ter ficado mais próximo, mas se tornava cada vez mais distante. Experimentara o que já haviam dito e redito desde o começo dos tempos. Mas agora, era simplesmente diferente dos outros. E nenhuma palavra saía de sua boca. Nem da minha.

Instantes para destruir tudo o que você é, tudo o que você foi. Tudo o que você poderia ser. E não será jamais. Instantes que chamaram mais instantes e que agora estão em seu corpo, como uma tatuagem, desafiando-o a serem desprezadas.

(acho que matei alguém)

A vida é drama, “torturas e lágrimas” e para quem a buscava, você se afogou, Raskólhnikov. E eu me afoguei com você.

Perdão não é o contrário. Não se apaga o preto com o branco. Nada se apaga.

A negação é o veneno. Necessidade de doses mais altas, mais e mais. Impedir qualquer respiração.

A mentira é seu aconchego. Seu inseguro aconchego de cada noite.

(…morri um pouco também)

Mas Raskólhnikov escolheu a Sibéria. E no final: “Ele nem sequer sabia que a vida nova não lhe seria dada gratuitamente, mas que ainda teria de comprá-la cara, pagar por ela uma grande façanha futura…”.

E aqui: “Não compreendia que aquele pressentimento podia ser o anúncio duma futura crise (futura?) em sua vida, da sua futura ressurreição, da sua futura maneira de ver a vida”.