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Amor entre grades

 

A mulher estava com saudades. Preparou-se durante dias para ver o namorado, um rapaz anos mais novo que estava preso porque cometera alguns pequenos delitos. Ela não ligava de ter que passar, uma vez por mês, por toda a rotina cansativa e humilhante estipulada pela delegacia para ver seu amor. Fez-se bela, cozinhou o prato preferido do casal e saiu decidida a viver intensamente aqueles poucos momentos que eram eternos, como escrevera uma vez em carta para o seu homem.

 

Quando conheceu o rapaz que dividia a cela com o namorado sentiu-se diferente: um frio e um calor. Foi amor a primeira visita. As idas à cadeia se tornaram mais frequentes e seus olhares estavam cada vez mais voltados para o companheiro de cela do amado. Achava-o atraente, interessante, maduro e ela alegrava-se mais nos momentos de chegada e saída, quando tinha mais contato com o outro, do que com os momentos íntimos que vivia ali, com o parceiro oficial.

 

Não foi correspondida. A princípio. Nem sequer um olhar. Era a lei da prisão. Ela sentiu-se mais atraída. Apaixonou-se. Sofria de amor. Não queria nem poderia revelar-se, apenas se alimentava disso, dos dois amores. Afinal, prometera ao namorado que ficaria do seu lado, daria-lhe apoio. Com o outro era diferente, era paixão ardente, era fogo.

 

Um dia resolveu o problema. O namorado foi transferido para outra penitenciária. Poderia, enfim, assumir a paixão sem levantar suspeitas. E sem pensar muito nos riscos, a mulher providenciou uma identidade falsa para entrar no estabelecimento prisional e rever o amante. Não queria ser percebida, nem atrair a desconfiança do outro por meio de falatórios.

 

A mulher estava com saudades. Preparou-se, como da primeira vez e seguiu rumo ao caminho indicado pelo seu coração. Permitiu-se sentir o amor. Mais amor. Permitiu-se tentar ser feliz, com os dois. Poderia dedicar-se a eles. Fazia planos…

 

A tentativa da mulher de entrar na delegacia com o documento falso só não deu certo porque os agentes de plantão a reconheceram e perceberam que ela portava uma carteira falsificada.

 

Ela foi presa, por amar demais.

casal_brigando.jpgNão, não, não. Pode ir tirando o dedo daí, porque não é assim. O play é o botão da esquerda. Você não sabe ler? E aquela xícara ali em cima da mesa de centro? O jornal. Cadê o jornal que você ficou de comprar na volta da padaria? Sabe, eu tenho uma falta de paciência pra esse povo que vai à televisão chorar as pitangas. Um tanto de mulher desiludida. Esses programas matinais são mesmo deprimentes. Desliga isso!

Outro dia, quando a Celina, a secretária do meu psicólogo, estava me contando sobre como o namorado dela é um palerma, fiquei ouvindo quieta e pensando: “Ainda bem que eu tenho um homem como o Jorge ao meu lado. Sou mesmo uma mulher de sorte”. Sou, né, amor? Você é tão perfeito! Ah, mas tem uma outra coisa que eu tinha que te falar. A gente precisa comprar logo os ingressos para aquele monólogo com a Débora Bloch. Eu sei que você não gosta de teatro, muito menos da Débora, mas vai fazer isso por mim, não vai? Tá vendo? Por isso que eu tenho sorte. O quê?! Aquela banda que toca aquele som deplorável; que todos os integrantes só se vestem de preto e ficam gritando, achando que agradam? Não vou mesmo. E, claro, sozinho eu não deixo você ir. Ou seja…

Nossa, tenho tanta coisa para fazer ainda hoje. Não vai sobrar tempo nem para respirar. Ops! Você tinha me pedido para te ajudar a escolher o terno pra sua entrevista de emprego, é verdade. Mas você entende que não vai dar, não entende? Afinal de contas, alguém tem que trabalhar aqui. Esqueci de te contar que passei na agência e reservei Buenos Aires pra gente, nas férias. Nova Iorque é muito chata nessa época. E eu tenho certeza de que, no fundo, você nem queria tanto ir pra lá. Temos que treinar. Vamos falar solamente em espanhol a partir de ahora. Vamos, responda: ¿Quién és la mejor novia del mundo? Espere! Não temos tempo para isso. Lembrei-me que daqui a pouco chega aquele quadro que eu comprei. Você vai ter que se atrasar um pouco e ficar aqui para recebê-lo.

Como assim você não sabe onde colocou as chaves do carro?! Às vezes isso me cansa. Tudo sou eu, tudo. Eu não gosto de gente lerda, você sabe. E eu estou super calma, não precisa me pedir isso. Há quanto tempo mesmo nós moramos juntos? Oito meses é muito tempo. E o casamento? Quando você vai me pedir em casamento? Quando? Quando? Quando? 

 

Buenas, tripulantes! 

Eu sou a Maísa e vou aparecer por aqui todas as sextas, para tentar falar sobre o universo mais enigmático de todos: o feminino. Para isso, explorar situações que só nós, mulheres, somos capazes de criar. A inspiração? Textos, músicas, filmes e tudo o que vier à mente. A ordem a partir de agora é: HABLE CON ELLA. 

Bem-vindos à nave!