Posts Tagged ‘solidão’

 

É engraçado como idéias que surgem do agora acabam por se mostrar legitimadoras de tradições antiquadas, e até, politicamente incorretas. Por exemplo, estava eu outro dia a enquetear informalmente uns amigos sobre o tipo de mulher por quem a classe masculina mais se interessava. Eu não esperava uma resposta única, tipo loiras, ou peitudas, mas me surpreendi quando responderam em meio a gargalhadas: “homem gosta de toda mulher que mija sentada”. Minha surpresa, no entanto, não veio pela resposta. Veio do que eu senti pela resposta. Eu parei um segundo e por um segundo admirei o que para muitos, e principalmente muitas acham ser uma canalhice, ou galinhagem, prova de que “homem é tudo igual”: a disponibilidade masculina em amar o sexo oposto, por ele ser, simplesmente, do sexo oposto. Mesmo que muitos dizem que isso se reduz ao sexo, a busca pelo ato sexual mesmo, isso não tira o valor da exaltação que eles possuem pelo ser feminino, de forma coletiva mesmo. Pelo contrário, me parece que as mulheres em geral gostam de enaltecer um indivíduo único, e jogar com ele como se ele fosse o representante de toda a classe masculina. Por isso é tão comum, nas dores de cornos das luluzinhas o famoso “homem não presta, é tudo igual”.  É realmente engraçado, amar o coletivo de um indivíduo. Depois de um segundo de ponderação, a admiração passou e eu me vi as voltas com marcas de carimbo na minha testa: “machista”, “amélia”, “retrógrada”. Amar coletivo… Todo mundo sabe que toda massa é burra. Todo mundo? 

Seguindo com as enquetes, um oooutro dia fui perguntar “o que você faria se depois que se apaixonasse perdidamente por alguém, descobrisse que a pessoa era transexual (ou seja, fez uma operação para mudar fisicamente de sexo, não querendo dizer que ela/ele seja gay, já que a pessoa pode já ter nascido com predisposição para, antes de tudo SER do outro sexo – e não GOSTAR do outro sexo)?” Muitas respostas pularam direto no rio lodorento do preconceito, outras tentaram escapar invocando aspectos como os ferormônios, e outros detalhes que seriam definitivos na caracterização do sexo oposto. Mas vale lembrar que isso também é passível de mudança, se considerarmos os avanços da medicina nessa área. E ainda mais se considerarmos uma paixão fulminante, ela existe? No final das contas, eu mesma fiquei sem resposta pra mim e pra todo mundo. O que será que isso quer dizer?

 E pra terminar abrindo essa semana e fechando o ciclo amoroso do 25 centavo (abro no fecho – o que está acontecendo com nossos inconscientes coletivos?), afinal… de que amor estamos falando? Em recente visita a um homeopata, (- Tem mais de duas semanas que estou sentindo um gosto amargo na língua… – É o fogo do coração. Tem alguma coisa de amargo em sua vida…)(eu amo medicina chinesa!), soube do pensamento de que a busca que move o homem no mundo é o contato com o outro ser humano, a fim de romper a solidão intrínseca que é ser dotado de consciência única, mas não poder partilhar dela diretamente. Não é sexo, não é a imagem da mãe ou do pai, não é dinheiro. É o puro e simplesmente contato. Por isso, anotem, vale mais um amigo que improvisa com você na guitarra do que sexo por sexo no elevador! Contato, contato! Contaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaatos! Urgentes de terceiro grau!

 

magnoliaAbracei Magnólia. O calor regado pela fumaça dos veículos transmitiam o retorno para a casa.
Todos aguardavam ansiosos o último episódio da novela das 8, quem morreu, Paula ou Thaís? Quem matou?
Segurei forte a sua mão, sussurei alguma coisa carinhosa em seu ouvido e fomos caminhar um pouco. Passei pela Praça da Sé afim de pegar a última sessão do dia em alguma loja de eletrodomésticos ainda aberta. Estávamos perto do Natal, ou seria outra data comercial, ainda não sei, prefiro ser meu próprio relógio, quem governa é o coração.
As pessoas agem como se estivessem em um jogo de xadrez, movimentam-se com facilidade, e no final da noite sentam e dormem, satisfeitos pelo fato de terem preservado a rainha. A mulher é o futuro do homem. Minha doce, Magnólia.
Paro em frente à TV 29″ ainda ligada das Casas Bahia, o preço continua imbatível, mesmo não sabendo ler eu sei disso , de números eu entendo. Passei boa parte de minha vida por conta deles. O bonner e a fátima continuam formando um belo casal (diga-se dupla), suspiro com os lábios entreabertos, mas ainda distorcem suas fisionomias ao falar do terror que estamos acostumados a ver nos filmes. Morei em Hong Kong há três anos, aprendi a cantar em mandarim, a comer de pauzin e a pular com duas cordas, coisas que não são fáceis para um velho de 79 anos. Nasci no sertão nordestino, aprendi a andar com minha cachorra Baleia, saí de Itapioca para o mundo. São oito da noite e já fazem alguns dias que não coloco nada na boca, a não ser o mel que sai da boca de Magnólia. Ela respira por mim, faz do meu corpo um lance de chamas, um botão prestes a ser confortado por uma blusa de lã. Eu e ela sabemos que amar é demodê sim, mas quem se importa com tamanho descrédito para o que sentimos?
Andei pelas ruas, passo por um vira-lata, parecia estar perdido, faço um esforço para que ele ouça meus pensamentos, que saiba que alguém nesse mundo olha por e para ele. Magnólia o conhecia muito bem, já que o chamou pelo nome, mas ele mal pôde nos ver, pois tinha sobre os olhos uma camada branca, cicatrizada pelo tempo. Observamos seu caminhar macio sobre a calçada, passos cansados, sábios por percorrer tantas vezes o mesmo caminho. Ele pára em frente a uma estante de frangos assados de uma grande padaria, suor escorrendo, ainda dá pra ouvir a pele estourando e o barulho das engrenagens. Por ali ele permanece por várias horas, somos todos tele-espectadores do mesmo canal.
Resolvo voltar para casa, Magnólia foi fazer companhia para o amigo dos passos cansados. Voltei um pouco desolado, mas eu teria que voltar para casa, não aguentaria acompanhá-la por muito mais tempo….

 

Continua na próxima semana.
Esta parte da história foi baseada na letra da música Baader-meinhof Blues da Legião Urbana, por aqui.

Olá, eu sou o Braulio, escrevo aqui todas as terças.
O nome da minha coluna é EMUNDO, e vou tentar colocar aqui músicas, filmes, notícias que eu pego por aí traduzidos por alguns trocadilhos modernos. Viva la comunication.